16.12.14

Sábado

Um corte vertical na paisagem descontínuo,
Uma queda de muitas e muitas vezes;
Luzes opacas, estalando muitas e muitas vezes.
E as cores-cinzas, fúnebres.
O dia é turvo.

Letárgica, a gata mal preenche o lençol.
Ora silenciosa, Haiany lê –
Ora sonora, Haiany escreve muitas e muitas páginas.
Eu assisto. Recorto a cena.
Espreguiço os olhos sobre o parapeito.
Fora, a paisagem embaçada:
O telhado goteja um filete
E o telhado – e as folhas – cintila.

Haiany tem o brilho da tela nos brilhos dos fios,
Dos lábios, com os quais umedeço os meus.
O meu calor se eleva, mas Haiany esfria.
Então, deito as costas,
Sonhando com o dia em que haja ócio.

25.3.14

Haikai

As cinzas cerúleas,
A orquestra crepuscular
E a ideia nubívaga.

13.2.14

Sonho #04

É uma tela em carvão e giz. A festa reúne sombras alegres que mal se distinguem do ambiente. Os vultos passam, dançam, encontram-se; as silhuetas conversam, riem, bebem. Nenhum rosto conhecido se me apresenta, nenhuma voz que pudesse me agradar ouvir, nenhum olho capaz de me ver. O salão é pequeno. Observo cada detalhe de onde estou, recém chegado. Um garçom cruza a minha frente, partindo do balcão à minha direita. Ali, frutas, metais e garrafas negro-luzentes. A luz vem de fora, pelas portas e paredes de vidro. A noite é naturalmente clara, embora escura. O mar risca o horizonte, a espuma das ondas cintila até se deitarem na areia. Devido ao burburinho, não as ouço. Sequer compreendo as falas.

À minha esquerda, um novo cenário. Deixo a inércia para adentrar o pátio, coberto por toldo ou telhados. Há mesas por toda parte. O chão é composto por tábuas. Alguns postes de madeira, nos limites da área, firmam o teto. Ouve-se música, mas as pessoas permanecem sentadas, tendo uma conversa muda. Dentre as poucas de pé, destacada ou também invisível ao público, ela, cuja presença sempre procurei evitar. A praia encanta os seus olhos. Nem mesmo me percebe, já próximo de si.

Nada nos cerca. Podemos sentir a brisa da ausência de barreiras. Quero falar-lhe, quero ouvi-la; porém não ouço, apenas falo; ou não falo, apenas penso. Contudo, é como se tivéssemos uma longa conversa sobre a nossa vida, sobre o meu apodrecimento, sobre as minhas incapacidades, como se tudo fosse culpa dela, a raposa, porque mentia.

Ela continua em fascínio, com o olhar fixo para onde, certa vez, quis voltar a minha atenção, dizendo: “Veja o pôr-do-sol”. Já tinha visto. Informei seco de ciúme. Alguns de seus amigos e parentes me rodeavam, observando a ilustração que eu fazia do ponto oposto ao qual ela queria que eu visse. Deixei que contemplasse o ocaso com a sua nova companhia, que só queria estar ao seu lado e falar e falar e falar... Agora, ainda me recuso a direcionar a vista para lá, continuo o contrário. Vejo a pedra que desenhei, uma enorme massa de negrume. Em segundo plano, o arrebol, tingindo o céu entre nuvens pretas, caindo para onde voltei o meu rosto, aquilo que eu não queria ver.

4.2.14

Sonho #03

Primeiro, fecho a porta; depois, desligo as luzes. Só há as de fora, delineando sombras pelo quarto. Deito-me. Às vezes, as costas sorriem. Encerro os olhos que, agora, enxergam melhor do que quando estavam abertos, segundos atrás. O mesmo para os ouvidos. A rua, a vizinhança, não soa; apenas o ventilador ruida, agradavelmente. O seu vento me cobre. Tenho o cobertor entre os braços. Um invólucro sufoca os meus pensamentos: eles se apagam, emudecem. Os demônios, que antes dançavam, estão caídos. Estou submergindo, afundando em mim, um oceano negro. Não existe empuxo.

O céu é sereno. Ao meu redor, tudo é noite. As estrelas tomam espaço sem alcançar o horizonte. A lua não se apresenta. Alguns postes iluminam a estrada asfaltada, delimitando bem as bordas. Depois delas, escuridão; mas não é como se eu pudesse cair, caso saísse da pista, ou dar encontrão em algo ou desaparecer. O caminho é como feito para carros, com tracejados brancos pelo meio, porém tem largura para uma pessoa apenas. Ele começa bem onde estão os meus pés, não preciso olhar para trás. Observo as luzes projetadas ao longo do percurso e vejo um chão granulado, escuro, que brilha a minúsculas gotas de luz.

Ando. Ou andar ou nada. Andando, hei de encontrar algo mais. Andando, hei de me conhecer. É a minha certeza, uma obviedade. Ao final da via, saberei quem sou, e isto me empolga. Os meus pés mastigam o solo, os passos soam farelentos. É toda a sonoridade que há, tão audível que se pode contar cada grão pisoteado.

Passado um tempo, um quebra-mola. Que graça! Que obstáculo inútil! O que pretendiam? Dificultar a minha caminhada? Penso. Rio. Tenho ainda mais certeza da minha busca. Preciso chegar ao fim. Adiante, um aclive. Previsível. O cenário parece ter vida e gracejar, criando estes obstáculos. Depois dele, encontrarei o meu ser. É certo. Talvez as coisas só existam enquanto as vejo. No topo, outra lombada, mais uma piada. Pode ser que queiram me retardar ou é um aviso: nunca chegarei aonde quero. Contudo, prossigo. De cima, não vejo nada. Desço e já estou de frente a um novo empecilho.

Estou à entrada de um estacionamento sem carros, sem vagas; somente direções, passagens. Há muitas pilastras, segurando um tento infindo, um negrume vasto. Não há qualquer fonte luminosa, no entanto posso ver o que está avante. O seguimento, agora, é bifurcado. Direita ou esquerda? Opto pela esquerda. Desta vez, não há riso. Em poucos passos, as opções se multiplicam. Por onde ir? O entusiasmo queima. Tanto faz a direção. Todavia, a cada progresso uma multiplicação. As direções são várias. Os meus olhos saltam de uma a uma, cegos. A minha cabeça ferve com o vapor do entusiasmo e logo transpiro pavor. Estou perdido em um labirinto sem paredes, incapaz de atravessar as divisas que tornam os caminhos incontáveis, incapaz de retornar. Pareço celerado, no meu desespero. Tomo rumos sem pensar. Há tontura, agora, depois de tantos giros.

Chego ao centro: um poço enorme, engolindo as pistas, transbordando escuridão. É ali. Encontrarei o meu ser ali. Cauteloso, aproximo-me. Olho para baixo. O que não vejo me fascina. Há degraus para mim, os quais desço, os quais se retraem quanto mais me distancio da superfície. O medo me freia. Se eu cair, não poderei voltar, ficarei preso em mim mesmo; e o que hei de encontrar lá? Corro de volta, fugindo de uma suposta asfixia. Salto degraus para cima, que deixam de existir. Escapo da armadilha, assustado feito um gato, atônito na minha cama.

21.10.13

Minha raposinha sempre bela

Minha raposinha sempre bela.
Muito bonita e jovem.
(Vaidade, talvez... Sim. Vaidade.)
Linda, linda.

Em teu quarto, nós dois: no sofá, tu; no chão, eu.
Teus olhos: tanto sono, quase sonho... A voz esmorecida...
Que bom cheiro, Memória! Que pele! Curvas!
Bela raposa – horizontalmente bela –, bom sono.
Também bom pelo.
E os cachos? Por que não mais cachos?
Vaidade...

O corpo curvo de frio, pequeno.
Meus ouvidos, fiéis; meus olhos – livres – em ti, num campo farto e
[brônzeo,
Com uns leves tecidos brancos sobre tudo.
Dos seios miúdos à anca contrária.
E tu contrária a mim, a minhas palavras, planos, vontades.
Ainda assim, bela. Para mim, bela.

As mãozinhas, juntas, entre o rosto e o travesseiro alto,
Quando, em mim, uma palpitação sísmica.
Quantos anos, quanto tempo, naquele envelhecimento de instante?
Minha raposinha hedionda...
Bela, antes; velha, então.
E o espanto em meu rosto – no meu pelo teu?
Não à vista, pois o sono.
Uma alma, trêmula; a outra, sonâmbula;
Mas ambas dum roncar pavoroso de sono e surpresa pelo mutável
[imediato.
A pele frouxa, olhos assimétricos, boca sinuosa.

Num volver lânguido, as costas, o pelo sem cachos.
O silêncio, enfim.
Apenas gotas de espanto espaçadas;
Uma poça de espanto fugidia.
Mais espaço entre nós.

Eu, um poente.
(Um tecido escuro sobre mim.
Do corpo extenso ao pensamento basto.)
Tu, não mais bela? Esmorecimento?
Eis a cegueira, o túmulo;
Eis o não-pensar, e a cicatriz na memória.