1.1.16

Ceia com Dr. Lecter

Triângulos brancos de pano alinhados
Sobre rubra-e-alva seda bordada,
Simétrico arranjo de pratalhada,
Chopin nos meus ouvidos destreinados.

Disseste-me—a colher empunhada—
Que tratas tu mesmo que os próprios gados
Sejam, pois, propriamente derribados,
E concordei pós primeira garfada.

Pergunto-me se é verdade, talvez,
Que, ao toque do fogo cartaginês,
Juraste eterna inimizade a Roma.

Digo-te então, bom amigo interino,
Que o homem é primo carnal do suíno;
Abandona tua vaidade e me coma!

30.12.15

Escoamento

Formas circulares,
Voltas claras.
Formas transparentes,
Voltas alvas.

Formas esferoides,
Voltas leves.
Formas orbitantes,
Voltas débeis.

Formas renitentes,
Voltas finas.
Formas circunfusas,
Voltas vítreas.

Formas circunstantes,
Voltas próximas.
Formas convergentes,
Voltas lógicas.

Formas cristalinas,
Voltas fúlgidas.
Formas redundantes,
Voltas últimas.

27.9.15

Tédio

Tenho a janela sempre aberta
E o negror à vista.
O céu é menos negro do que as folhas do coqueiro.
Há, na negrura, uma luz quadrada, além.
Os pássaros cantam, penso na manhã.
Em mim, o sol nasce
E desperta sensações de poesia,
E a minha gata acorda.
Espreguiça-se, volta a dormir.
Observo.
O abdômen infla...
O abdômen contrai...
As sensações latejam tão fraquinhas...
O pensamento é memória qualquer,
Assim como isto, assim que se lê.

17.9.15

Letargia

Escura a retina, antes clara;
O sol, menos claro, caindo
Sangrento às paredes da casa
Escura, igualmente sumindo.

Assenta o silêncio na sala,
Sussurras insultos dormindo.
Sibila a sonâmbula fala,
Sonhando o teu triste domingo.

Nos sonhos, perpassam-te mágoas.
Despertas co' os olhos chovidos.
Vislumbras um vulto ou fantasma
Parado, soberbo, sorrindo.

Resmungas: são mudas palavras.
Esvai-se a visão aos pouquinhos.
Levantas, tateias o nada;
Desabas co' o peito dorido.

28.4.15

Maio

Faz mais frio em maio. Ao menos aqui, onde moro. Se não fizesse, eu não usaria calça e a Bebel, com dois ou três meses, não escalaria as minhas pernas e eu não teria tantas marcas de unha. (Se fizesse calor, eu ainda beberia aquele uísque, que mais parecia água suja). Pelo frio, talvez, a Bebel pegou o costume de dormir debaixo do edredom, colada a mim. Eu, muitas vezes, acordava assustado, cego de sono, atado a sonhos, acreditando ter esmagado a gata. Nunca consegui afastá-la desse risco. Hoje, o meu desespero se repetiu: toquei-a, sacudi, e ela abriu os olhos, aparentando confusão. Retornamos a nossa pesada tranquilidade.

Sinceramente, não me recordo bem de maio. As lembranças que tenho são dos meses anteriores. Em março, se não me engano, cheguei a minha casa e me deparei com uma caixa de papelão, bem no meio da sala. Foi como conheci a Bebel. Não sabendo nada de si, dei o nome de Haiany. Mudou – claro – porque aquela coisinha já havia sido nomeada. Mais tarde, descobri algumas semelhanças entre a humana e a felina. O tal uísque veio antes do filhote, com a Haiany. Se um chegou em março, o outro chegou em fevereiro; ou no mesmo mês, no início e no fim; ou março e abril. É certo que não estavam juntos nem a bebida veio depois. A Haiany me fez duas visitas, antes da Bebel, e passamos algum tempo distantes. Daí, quando vinha a minha casa com mais frequência, a Bebel era Bebel, não Haiany, e já tinha parado de aromatizar o meu quarto com urina. Nesse período, era maio; se não era, então junho, e ainda fazia frio. O que posso precisar de junho é o meu aniversário, o qual passei sem gente ao redor. Não me recordo, no entanto, como foi o dia.

De maio, só tenho certeza do aniversário da Haiany. Mesmo não dando parabéns a ninguém, por cansaço da repetição, enviei-lhe a imagem de uma cabra, na qual se lia: "Happy Birthday". Recebi algo similar, no meu dia.

Era só para lembrar do frio de maio, que se estende aos outros meses, pois hoje, que ainda não é maio, precisei vestir camiseta e calça para dar de comer aos cães. Um ano atrás, eu reclamava dos lábios rachados; porém o frio é pior no peito. Não racha, todavia faz sombra à vista, às ideias, como se uma névoa de gelo circulasse as veias.