12.7.10

Resgate de Teseu

(Hades. Teseu e Pirítoo dormem em cadeiras. Serpentes se enroscam em seus membros, deixando-os fixos nos assentos. Pirítoo acorda como que embriagado.)

PIRÍTOO — Ah, fartei-me! Tão boa carne, tão bom vinho. O sono é sempre bem-vindo. Espera. Ouço silvos. (assustado) Oh, cobras! Cobras! (se sacode na cadeira) Teseu, Teseu! Acorda.

TESEU — (sonâmbulo) Quem ousa perturbar o sono divino? Não vês que ainda é cedo?

PIRÍTOO — (esbraveja) Acorda, desditoso! Abre teus olhos agora. Vê: estamos presos nas cadeiras por cobras. Fomos enganados!

TESEU — (ainda sonâmbulo) Que dizes? São sonhos. Delírios. Tomaste vinho assaz.

PIRÍTOO — Não queres ver? Ao menos ouve.

TESEU — Silvos. Que há? (silêncio seguido de espanto) Silvos?! (desperta) Cobras! Cobras! Acode, acode!

PIRÍTOO — Somos dois.

TESEU — Que fazemos?

PIRÍTOO — Espera. Ouço alguém.

TESEU — Ouço contigo.

(Som de batalha. Coisas se quebram. Um homem urra com valentia, outros berram de dor. Choro de cão. Baque surdo no chão.)

HÉRACLES — (entra assoviando com uma coleira na mão) Único cão que aqui encontro a esta mordaça não serve. Oxalá Zeus fulmine a casa do que me enviou para cá.

TESEU — Héracles, amigo, és tu? Felizes são os deuses olímpicos.

HÉRACLES — Reconheço a voz de quem me fala. (vira-se) Sim, é Teseu! Que fazes no inferno? Não soube lá em cima de sua morte. Foste traído ou morreste lutando?

TESEU — Traído fui, mas não morri.

PIRÍTOO — Viemos levar Perséfone para ser minha esposa.

TESEU — E nos prenderam nestas cadeiras.

PIRÍTOO — Ao menos, bebemos e comemos até fartar.

TESEU — Oportuna é tua vinda, Héracles. Arranca já estas serpentes que nos prendem.

HÉRACLES — (aproxima-se) Oh, cobras! Afasta, afasta, afasta!

TESEU — Que há? Medo de cobras?

PIRÍTOO — Um frouxo!

HÉRACLES — Cala! Cortarei uma a uma com minha espada. (puxa uma enorme espada, prepara-se para golpear)

TESEU — (berra) Não! (muda de tom) Assim não. Decepar-me-á. Apanha com tuas fortes mãos.

HÉRACLES — Com as mãos? Não. Com as mãos não.

TESEU — Por que não?

HÉRACLES — E se me picam?

PIRÍTOO — No Hades já estás. Menos trabalho a Hermes e Caronte.

TESEU — Pega pela cabeça. Um pouco abaixo da cabeça e estrangula. Assim não te mordem.

HÉRACLES — (aproxima-se, toca uma serpente e se afasta dois passos, limpando a mão no corpo.)

TESEU — Foste mordido?

HÉRACLES — Não, não.

PIRÍTOO — Que há, então, contigo?

HÉRACLES — Oh, como são asquerosas!

PIRÍTOO — Ai de mim! Fadado a morar no Hades. Sequer morto estou. Antes os deuses me enviassem dois afeminados e as cobras teriam desaparecido.

HÉRACLES — Cala outra vez. Pensarei em algo (senta no chão)

(Longo silêncio. Pirítoo tamborila no braço da cadeira, Teseu acompanha o ritmo batendo os pés no chão.)


HÉRACLES — (ergue-se berrando num salto repentino) Eureka!

(Pirítoo e Teseu quase saltam da cadeira com o susto. As cobras caem mortas.)

PIRÍTOO — Queres nos matar de susto? Dize logo o que pensaste.

TESEU — Pirítoo, vê: as cobras morreram com o susto.

HÉRACLES — Podemos ir, agora. Tenho de passear com o cão. (sai)

(Teseu e Pirítoo tentam se levantar, mas ainda permanecem com suas bundas grudadas no assento)

TESEU — (berra) Héracles! Ditoso herói, filho do excelso Zeus. Acode.

HÉRACLES — (volta) Que há? Ainda querem descansar do banquete?

PIRÍTOO — Não conseguimos sair. Pareço pesar dez vezes mais o que peso.

HÉRACLES — Culpa da comida que comeram e do vinho que beberam.

PIRÍTOO — Não fales asneira! Arranca-nos já daqui.

HÉRACLES — Talvez um pouco de água quente ajude. Esperem. Vou procurar.

TESEU — Água quente, aqui, não há. Pensa em outra solução.

PIRÍTOO — Silêncio. Ouço vozes.

HÉRACLES e TESEU — Ouvimos contigo.

PIRÍTOO — Ouço passos.

HÉRACLES e TESEU — Ouvimos contigo.

PIRÍTOO — Parece ser uma legião.

HÉRACLES — Adeus! Vou-me em boa hora.

TESEU — Quê? Espera! Leva-nos também.

(Héracles aproxima-se de Pirítoo, abraça seu torço e faz extrema força. Pirítoo berra de dor, Héracles o solta e dá um murro em seu rosto, fazendo o herói desmaiar)

TESEU — Enlouqueceste?! Qual a necessidade do golpe?

HÉRACLES — Os gritos irão denunciar-nos.

TESEU — Vai, apressa-te. Tira-me daqui. Ouço-os mais próximos.

HÉRACLES — (mostra o punho cerrado) Sabes já, se gritar.

(Em um só puxão Héracles arranca Teseu da cadeira, este grunhe e chora. Está saltitando de dor)


TESEU — (coça a bunda) Eu sangro?

HÉRACLES — Sangra.

TESEU — (olha para a cadeira) Arrancaste um pedaço de mim!

HÉRACLES — Ordens tuas.

TESEU — Ai! E como me sento agora?

HÉRACLES — Por tanto tempo sentado, ainda pensas em sentar?

TESEU — E Pirítoo?

HÉRACLES — Deixemo-lo. Se queria ele estar com Perséfone, aqui está. Vamos. Apressa. Tenho que buscar o cão.

TESEU — Vieste com um cão?

HÉRACLES — Não. Levo Cérbero, cão infernal.

TESEU — Por que o levas? Não temes a vingança de Hades?

HÉRACLES — Hades? Pff! Quem é Hades? Já o viste? Nunca sequer o cão levou para fazer suas necessidades. Será mais feliz vindo comigo.

TESEU — Vamos. Apressa.

(Saem Héracles e Teseu. O último caminha em passos mancos)

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