Os pássaros dobram,
E os sinos — o homem, as flores —,
Diante do astro-rei.
30.9.12
31.5.12
Noite rubra
Trôpego, na noite nefasta,
Debrucei-me na cama rubra.
Ornava a namorada ruiva —
Lume argênteo, folha encarnada.
Eu, ébrio de ideias nefastas
E lívido co’ a amante rubra,
Tomei da cabeleira ruiva —
Lume argênteo, folha encarnada.
Ergui a lâmina nefasta
E vislumbrei lágrimas rubras.
Levou-me o brilho da mi’a ruiva —
Lume argênteo, folha encarnada.
Incrustei-me a prata nefasta,
Co’ o punho firme e a palma rubra.
Unia-me à formosa ruiva —
Lume argênteo, folha encarnada.
Mas não veio a deusa nefasta,
Da cintilante foice rubra,
Que encravara na bela ruiva —
Lume argênteo, folha encarnada.
Trêmulo, da alcova nefasta
Fugi em caminhada rubra,
Deixando sobre a virgem ruiva —
Lume argênteo, folha encarnada.
14.5.12
Hoje, não
Há-me necessidade de morrer.
As pernas sentem o cansaço da vida:
Quero descansar os olhos,
Pousar as costas.
Tenho preguiça demais.
Arrasto o amanhã para longe, lento.
Escureço as manhãs.
“Hoje, não”, tenho dito a mim,
Tenho dito a tudo.
Não me há vontade de viver.
Sinto que as pernas só querem dobrar-se,
Os olhos se cansam,
As costas doem.
Há-me demasiada letargia:
Arrasto-me por corredores, degraus e ruas.
Escureço-me aos transeuntes.
Hoje, não.
Hoje, não moverei um músculo.
Há um grande cansaço de estar vivo.
Estiro as minhas pernas:
Os meus olhos são sono,
Como as costas.
Faltam-me vontades.
Sempre faltaram, então tudo se arrasta,
Como as sombras.
Hoje, não. Não... Não...
Hoje, não sou.
As pernas sentem o cansaço da vida:
Quero descansar os olhos,
Pousar as costas.
Tenho preguiça demais.
Arrasto o amanhã para longe, lento.
Escureço as manhãs.
“Hoje, não”, tenho dito a mim,
Tenho dito a tudo.
Não me há vontade de viver.
Sinto que as pernas só querem dobrar-se,
Os olhos se cansam,
As costas doem.
Há-me demasiada letargia:
Arrasto-me por corredores, degraus e ruas.
Escureço-me aos transeuntes.
Hoje, não.
Hoje, não moverei um músculo.
Há um grande cansaço de estar vivo.
Estiro as minhas pernas:
Os meus olhos são sono,
Como as costas.
Faltam-me vontades.
Sempre faltaram, então tudo se arrasta,
Como as sombras.
Hoje, não. Não... Não...
Hoje, não sou.
26.4.12
Hay
I
Chegou-nos o luar,
Sob algumas árvores,
Entre o peito e os braços.
Entre sóbrio e bêbado,
Meus lábios nos fios
(E uns soltos na cama).
Teus olhos atentos
Às luzes da noite...
Na parada, ônibus.
Eu parado, tu ias.
O carro roncava
Sonolentamente.
Depois, era um vulto
De brilhos sonâmbulos.
Meus olhos ardendo
Às luzes da noite...
II
Devia ser breve;
E não eu, mas outro.
Ah! Como eu te quis,
Minha pulguentinha!
Minhas mãos coravam,
Qual pincel na tela,
O teu corpo aguado.
Tu eras sorriso,
Receio, volúpia,
Enternecimento...
Hay, you are so crazy!
Amavas a mim?
III
E nós dois, menina?
O que há de nós?
Alguns fios soltos
Às luzes da noite.
Chegou-nos o luar,
Sob algumas árvores,
Entre o peito e os braços.
Entre sóbrio e bêbado,
Meus lábios nos fios
(E uns soltos na cama).
Teus olhos atentos
Às luzes da noite...
Na parada, ônibus.
Eu parado, tu ias.
O carro roncava
Sonolentamente.
Depois, era um vulto
De brilhos sonâmbulos.
Meus olhos ardendo
Às luzes da noite...
II
Devia ser breve;
E não eu, mas outro.
Ah! Como eu te quis,
Minha pulguentinha!
Minhas mãos coravam,
Qual pincel na tela,
O teu corpo aguado.
Tu eras sorriso,
Receio, volúpia,
Enternecimento...
Hay, you are so crazy!
Amavas a mim?
III
E nós dois, menina?
O que há de nós?
Alguns fios soltos
Às luzes da noite.
19.4.12
Eu não vou falar de mim
Eu não vou falar de mim,
Pois aborrece a quem fala e a quem ouve.
Não vou falar de mim, mas dos outros;
Mesmo que falar de mim seja um outro a falar.
Aborrece.
Não vou falar de mim.
Os outros sabem mais de mim do que eu mesmo.
Falarei dos outros.
Se quiseres saber de mim, pergunta aos outros.
Os outros sabem de mim e dos outros,
Mais do que sei de mim.
Pergunta aos outros,
Embora falar de mim aborreça.
Se eu tiver de falar de mim, será um outro,
Pois os outros sabem mais de mim.
Pergunta aos outros.
Ninguém pode saber de si.
Se eu der por falar de mim,
Por não saber de mim,
Sou outro.
Pergunta.
Aborrece falar de si.
Os outros, se queres saber, sabem falar de mim e de todos os outros.
Não vou mais falar de mim,
Se há quem fale.
Aborrece, se eu falar; e aborrece ouvir.
Mas quando eu falar de mim,
Um outro,
Já não sei de quem falo.
E quando aborrecer falar de mim,
E ouvir,
É medo de saber de si.
Pois aborrece a quem fala e a quem ouve.
Não vou falar de mim, mas dos outros;
Mesmo que falar de mim seja um outro a falar.
Aborrece.
Não vou falar de mim.
Os outros sabem mais de mim do que eu mesmo.
Falarei dos outros.
Se quiseres saber de mim, pergunta aos outros.
Os outros sabem de mim e dos outros,
Mais do que sei de mim.
Pergunta aos outros,
Embora falar de mim aborreça.
Se eu tiver de falar de mim, será um outro,
Pois os outros sabem mais de mim.
Pergunta aos outros.
Ninguém pode saber de si.
Se eu der por falar de mim,
Por não saber de mim,
Sou outro.
Pergunta.
Aborrece falar de si.
Os outros, se queres saber, sabem falar de mim e de todos os outros.
Não vou mais falar de mim,
Se há quem fale.
Aborrece, se eu falar; e aborrece ouvir.
Mas quando eu falar de mim,
Um outro,
Já não sei de quem falo.
E quando aborrecer falar de mim,
E ouvir,
É medo de saber de si.
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