21.5.24

Lembrança de Marília

Levanto tarde, é o que a janela mostra. 
Um sol idílico me beija a face 
E vejo pássaros, que cantam e brincam, 
E o azul cerúleo pulular de insetos. 
Lagartos correm por telhas, muros, 
Na busca sólida por tais insetos. 
Meus olhos seguem pelo verde-cobre 
E avisto uma árvore a bailar esguia. 
Estendo o corpo para fora lânguido: 
Conduz-me o sopro desta vida rude. 
Os ramos altos, cortejando o céu, 
Balançam leves ao que o vento dita. 
A sombra tênue mal acolhe o chão. 

Dirceu, que sombra te cobriu alhures, 
Nos campos frescos, embalando amor? 
Marília tépida em teus braços firmes, 
Ouvindo o amor que declamaste em versos... 
Tivesse feito qual fizeste tu, 
Tivesse dado meu amor em versos, 
Amor teria de Marília assim? 

Cativo fui duma Marília outrora. 
Marília moça, que a memória traz 
À luz presente de meus olhos lúcidos. 
Escrevo os versos deste poema métricos
Volteando ideias, e percebo enfim: 
Não foi Marília verdadeiro amor.

14.10.23

Haicai

A nuvem desceu
E fez a noite cair...
Tão pesada a chuva.

27.8.23

Haicai

A chuva entristece,
Mas feliz é o verdejar.
Assim é o domingo.

29.7.23

Haicai

Minha gata mia,
É hora de levantar-se.
Mas a chuva nega.

8.3.21

As gatas

Contemplai, vós que passais, a noite;
Olhai para os telhados das casas;
Esperai: sentai em cadeira ou caixa;
Protegei-vos do frio do açoite.
Tão logo o dia calmo se afasta,
Pronto chega a agitada sonoite
E saem às ruas patas felinas.

Ó Lua, luzi este palco negro!
Fazei brilhar olhos obscuros
Da prole que Bastet deu ao mundo.
Então direi quem sobe primeiro,
Quem adentra o cenário noturno.
Assim que chega, para no meio,
Resoluta, Bebel, a bravia.

Imponente, tal qual fosse a Mãe,
Observa a gente que se amonta,
Como se levassem vida à toa,
Como se a vida lhes fosse vã.
Então dizendo: “Estamos prontas”,
Entra Mel, sem vontade de afã,
Co' um miado que faz sorrir o público.

E Bebel se afasta, desconfia
Dos passos vagarosos, silentes;
E Mel se aproxima persistente,
Revelando travessa porfia;
E trocam olhares descontentes,
Tornando Bebel mais arredia.
É quando Lola surge confusa.

Vem zigue-zague, trocando patas;
Vem cautelosa, pisando torto,
Pelas telhas rubras do composto.
É aquela que, no andar, se atrapalha.
(E outra vez, o sorriso nos rostos).
Faz parar a contenda das gatas,
Que debandam, ambas surpreendidas.

Molenga, esparrama-se nas telhas
E começa lenta lambedura.
A pata traseira aponta a Lua,
Enquanto a língua corre por ela.
Com dois olhos decorando a rua,
A sisuda Cherie observa
A irmã bem acomodada ali.

Mas, num pulo, é Magali que avança
E vem andando com certa pose,
Como se a líder do bando fosse.
Lola, agora alerta, se levanta
E desajeitadamente corre,
Muito depressa dali se afasta,
Em fuga ligeira às outras duas.

A estrela da noite: Magali.
A atenção de todos lhe pertence.
Assim, distraída, não percebe
Que logo às costas está Cherie,
Há muito só observando inerte.
Mas salta co' o repentino ouvir
Dum miado profundo pelas ruas.

Todas ouvem e também se espantam
Co' os ecos do miado cavernoso.
Co' o susto de saltar-lhes os olhos,
Vão-se às pressas das telhas, debandam.
Mas donde vem o miado da noite?
Na vastidão, revela-se a face
De Selina, já não mais terrestre.

25.5.20

Sonho #07

Não me é possível descrever Paris com precisão, pois não a conheço, nunca estive lá. A minha referência é um quadro da sala, feito em aquarela, retratando a cidade. Um bulevar, imagino. Cadeiras e mesas postas em frente a bares e cafés; vitrines convidativas; árvores magras, bem podadas, distantes umas das outras. Nenhum carro transitava, ali. Não havia pista para tal. Apesar do céu gris, as pessoas passeavam como se fosse dia de sol. Meu amigo e eu andávamos por lá, os olhos atentos a tudo. Não os deles, que apontavam para frente, pois vinha até nós sua antiga namorada.

Paramos diante dum prédio estreito, como os demais. Eu, apenas por um instante, pois continuei meus passos. Eles se cumprimentaram num abraço, já dando início a um diálogo, que só interessava aos dois. Sequer me viram tomar distância nem deram pela minha falta, presumo. Segui por aí, a esmo, até uma praça, se isto é certo. Um conhecido cruzou meu caminho, alguém que não via há anos. Vestia-se como um bombeiro, de camiseta vermelha, calça grossa e coturnos. Não parou, como se não me visse ou não me reconhecesse. Quanto a mim, acompanhei-o com os olhos, com aquela surpresa de encontrar alguém que não mais frequentava minhas memórias.

Continuei, em sentido oposto, sem dar importância àquilo. Vi-me diante dum gradeado alto, fechando uma das saídas do lugar. Ia dum edifício ao outro, que se encaravam, e do outro lado havia um casebre, um simples cubo de concreto. Não sei o que deu em mim, resolvi escalar a grade e assim o fiz, sem pudor algum. No topo, saltei para a laje daquela construção e afundei, como se tal fosse ilusão, como se eu fosse incorpóreo. Trespassei para dentro, confuso. O lugar era pequeno, bagunçado: um tanto de papéis espalhados sobre mesa, escrivaninha; alguns enrolados, talvez mapas ou plantas; pôsteres na parede; um armário num canto; um sofá ao lado. Não havia janelas. Não dei muita atenção àquilo tudo, apenas queria sair. Fui até a porta e, como antes, atravessei para o outro lado.

Uma rua longa, delgada e deserta se via à frente. Cruzei-a às pressas, como que em fuga, e parei diante do mar. Ondas calmas se quebravam contra as rochas e eu, hipnotizado, encontrei a paz. Demorei-me ali, a observar. Então, num impulso, saltei o mais longe que podia, evitando as pedras. Mergulhei além das ondas, afundei por um instante e emergi. Não via mais nada, somente o horizonte. As ondas se formavam no ponto onde eu boiava, fazendo-me oscilar. Um raio caiu no horizonte e vi a corrente elétrica correr sobre a superfície, porém não me alcançou. De qualquer forma, nadei para fora da água.

De volta à rua, avistei um homem sentado num banco, todo de terno marrom, sozinho. Tinha um jornal em mãos. Ao aproximar-me, reagiu com estranheza, seu rosto se desfigurou numa preocupação súbita. Ele não me via, mas sentia minha presença. Tentei interagir com o sujeito, que imediatamente se levantou, assustado. Um cão vadio rosnou para o nada, também incomodado. Tentei fazer-me visível, o que não funcionou, e o rapaz se afastou de mim, apavorado. O cachorro rosnava doido, rodopiava, e encontrou aquele. Atacou-o. Uns golpes de jornal apartaram o animal, todavia. Naquela hora, entendi o que estava acontecendo: sempre que eu tentava interagir com o mundo material, causava algum distúrbio na atmosfera e os seres sensíveis, mediúnicos, agiam daquele jeito. Assim, fiz provar meu raciocínio e tentei tocar as barras dum portão próximo. Mais cães vieram, saindo de não sei de onde, e o homem se viu rodeado. Agora, propositalmente perturbava a energia do ambiente, com minha vontade incessante de ser corpóreo, e o rapaz era atacado por cachorros raivosos, loucos. Uma cena de horror. Ainda hoje ouço seus gritos com clareza.

15.9.18

Quando houver ócio

Eu me recostarei na cadeira;
Tu, na cama,
Com os olhos fumegados.
Falaremos delírios,
Com as ideias nebulosas,
E meu riso se entrelaçará com teu.
Um instante vago,
Dirás que não te passou nada.
Mas passou.
Direi que sim e perceberás que sim,
Pois sempre erras.
E nossos risos se entrelaçarão novamente.
No meu silêncio, teu riso continuará,
Como se risses por nós ambos;
Pois, agora, não temos rido.
Ou rido quase nunca.
Isso porque te falta ócio.
Ócio para estar presente.
Amo-te, não obstante.

8.6.17

Da paixão

I

Nada. Vazio. Somente existir.
Paz verdadeira, silêncio pulsante.
Nuvens, estrelas, aromas, sabores:
São simplesmente o que são. Nada além.

II

Às vezes, vem-nos um sorriso tímido,
Discreto, mudo, confundindo a paz...
Tolice! Brisas não derrubam cais.
Sequer bagunçam meus cabelos soltos.

III

Ai, cheia! Água vítrea, fonte plena.
O eflúvio sobe, leve, aos olhos lúcidos
E turvos ficam. Fica o peito túmido,
Que queima, abrasa, e volta a amar, e teima.

IV

Tanto sono... Não sairei desta cama.
Aqui, fico até o findar de meus dias.
Que assim seja, que eu não queira o fulgor
Novamente. Acalenta-me o nada.

26.10.16

Sonho #06

Formas de treva, que se elevam colossais, feito garras do abismo; lanças de negrume, espadas de escuridão; silhuetas encrespadas, que serram o céu tenebroso e cinza. São pinheiros do horizonte, são barreira da estrada, que mal se vê, nesta neblina. Há terra, sob os meus pés, e mais vegetação de sombra, ao meu redor. Adiante, o negror se agiganta, marcha ao meu encontro, e cada passo é mudo: o silêncio que só os incorpóreos possuem. Eu extasio ou gelo? Ele vem por mim. Neste momento, preenche todo o meu campo de visão. Ainda que eu corresse, seria alcançado. Mas teimo. Eu temo a sua imensidão.

Na fuga do obscuro, chego a ruínas. Estou seguro. Ando por aqui e por ali, procurando algo. Preciso encontrar. O quê? Numa sobra de casa, vejo uma escrivaninha, uma cama, um livro ou um diário e parte do alicerce. As plantas cobrem quase tudo, como a noite, que escorre pela paisagem. Ao menos, agora, há luz. Vista limpa. As estrelas frias compõem uma miríade de lamparinas.

Morros nos circundam, a mim e a uma tropa dispersa cujos homens correm para lá e para cá. Parece que fogem, que foram derrotados numa guerra que não se ouve. Apenas ouço pés e palavras que não marcam. Ando por entre eles e, curioso, paro. Muitos soldados de joelhos, próximos a uma cerca, escutam o discurso do superior adiante e de pé, todo rocha. Eu só me atento ao fim:

— Então vocês se tornarão um com o solo.

Nesse instante, todos, sem hesitarem, sacam as suas pistolas e encostam contra as suas cabeças. Atiram. E tombam para frente, com o chão engolindo os seus rostos. Antes que a sincronia do ato pudesse espantar-me, outro chega e se põe ao lado dos mortos. O líder qual estátua permanece. Rapidamente, aquele apanha a sua arma e faz como os demais, caindo igual. Viro-me e sigo para qualquer direção.

8.9.16

Sonho #05

Recebi, via aplicativo de celular, uma mensagem dum velho amigo. Algo sem importância. Como eu estava por perto, resolvi fazer-lhe uma visita.

As ruas, por aqui, são sempre assim, meio vazias. Hoje, vendo algumas pessoas do lado de fora, até me parece um dia agitado. A frequência com que os carros passam faz com que não nos preocupemos nem um pouco com eles. A propósito, a pista é um tanto estreita. Quando surgem, rapidamente desaparecem, neste caminho sem início nem fim. Para onde vão com tanta pressa? Talvez só estejam vagando, como eu, presos à velocidade. As cores também são raras. Tudo sofre de desbotamento e obscurescência. O céu é uma enorme cúpula de concreto, sustentada por extensos edifícios. As árvores mal se veem, mescladas à sombra de tudo.

Seguindo pela calçada cinzenta, aproximo-me da casa do meu amigo, que é, talvez, a entrada dum condomínio, num grande descampado de terra e grama, cujo verde se tornou pálido. Ando ainda um bom pedaço até ela, rápido e sorrateiro, dobrando os joelhos, curvando o torso, para perder altura. Ali, agachado sob a vista da janela, começo a imitar miado de gato, projetando o som para dentro através dum fragmento aberto no vidro da janela. Pelo que a cortina me permite ver, vislumbro as cômodas escuras do local. Uma criança aparece, de repente, e desaparece no breu. Sentado ao lado da janela, quase que de frente para mim, o meu amigo é banhado pela luz fria da tela do computador. Insisto na imitação, tentando chamar a atenção, mas falho. Nem mesmo a criança vem ao auxílio do gato. Desisto da brincadeira, chamo o meu amigo, sorridente, e me mostro por inteiro. Entro. Sento à janela, junto a si.

Enquanto ele dá início a uma arrumação, limpando a mobília cujos contornos mal se percebem, devido à negrura do ambiente, conversamos sobre assuntos quaisquer. Em dado momento, ele começa a varrer o chão e a criança retorna de algum canto, passeando para lá e para cá. É a sua irmã, imagino. Nesse momento, estamos falando de mulheres, nossas relações. Eu, então, explico o que há entre mim e a minha estrela:

— Todos nós, mesmo que sem querer, impomos testes de confiança um ao outro, e eu acredito que passei no teste dela já. Acredito que ela realmente confia em mim. O meu, no entanto, continua, mesmo que eu não ligue para isto. Ainda não tenho certeza de que ela não me deixará.

Levantei, pois a vassoura alcançava os meus pés e achei melhor sair dali. Apanhei um pão e o comi puro, seco, assistindo ao meu amigo circulando pela casa. Aos poucos, a massa ia acumulando-se, grudenta, na minha boca. Os dentes não conseguiam cortá-la e eu sabia que, se a engolisse, engasgaria. Puxei a coisa para fora com o dedo feito anzol e abri uma fresta da porta, para despejar aquela gosma. Nisso, o meu amigo aproveita para retirar da casa o monte de sujeira reunida pela vassoura.

— Pergunte à minha mãe se ela arranhou o carro — voltava ele, pedindo.

“Eu? Por que eu?”, pensei. “Ela deve ficar puta, se eu perguntar isso”. Ignorei. Na verdade, não tinha dado pela presença dela até ser mencionada. Estava numa parte clara da moradia, a qual não sei o que era. A cozinha era o mesmo que a sala. O fogão ficava bem ao lado da geladeira e uma chaleira esquentava sobre o fogo, que mais roubava luz do que iluminava. Agora, com a menina no colo, o meu amigo punha a chaleira na pia e, em seguida, buscava por algo dentro da geladeira.

O cenário, subitamente, esmorecia e só me ficava a sensação de tranquilidade daquele lar, certa satisfação por observar a união daquela família. O pai não era presente, não havia. Bom, e daí?

20.6.16

O fim do primata Marcelo

          Marcelo era um mandril. Vivia no Rio de Janeiro e trabalhava na Polícia Federal. Havia passado num concurso público e desde então estava lotado na Praça Mauá. Era responsável pelo setor de certidões. Um bom símio, embora tivesse um histórico duvidoso.
          Ele não era casado, mas tinha uma bela namorada com quem vivia há mais ou menos cinco anos. Ângela era uma bela loura de pernas longas e olhos cor de mogno. Ela queria ter filhos com Marcelo, mas não podia por razões óbvias. Ela era humana e ele não.
          Em janeiro de 2009, após muitos dias de calor intenso no verão carioca, choveu por horas em Botafogo, onde ele estava de passagem. Estava no Shopping Rio Sul comprando algumas roupas para uma viagem que faria ao Chile com seus amigos menos peludos. Ele atravessou o túnel para Copacabana a pé, fora abordado por um assaltante e baleado na cabeça. O macaco morreu; mais um macaco vítima da violência na Cidade Maravilhosa.

6.6.16

Diabos! II

    Cristóvão espirrou quatro vezes seguidas e, graças a isso, saiu brevemente de sua pista. Ele rosnou de raiva enquanto procurava a caixa de lenços no porta-luvas sem sucesso. Tentava manter os olhos na pista e, depois de abrir o compartimento, ainda falhou em achar o que buscava.
    — Merda — vociferou. — Porra de alergia do Diabo!
    — Ei — alguma voz cavernosa respondeu. — Não tenho nada a ver com ela.
    Olhando para o lado, o homem percebeu que alguém havia se materializado no banco do carona. Não um alguém qualquer, mas uma face familiar e caprina que havia visto há mais de uma década. Todo aquele tempo não a apagou de sua memória, normalmente falha.
    — Quanto tempo, hein, Cristóvão? — disse o demônio.
    — Céus — disse Cristóvão, recuperando-se do susto. Ao perceber o que havia dito, benzeu-se com a mão direita. — Digo... cacete. Faz uns quinze anos.
    — Por aí. Mantenha os olhos na pista, diabo.
    — Diabo é você.
    Tim era seu nome, Cristóvão lembrava. Não podendo argumentar contra o que acabara de dizer, o demônio deu de ombros e assentiu com a cabeça. Os chifres raspariam no capô se a entidade profana não tivesse a cortesia de manter-se corcoviada em seu banco.
    — Cuidado com essa porra desse chifre aí, parceiro — Cristóvão enfatizou.
    — Tá desbocado, hein, rapaz? Que houve?
    — Tu tá me devendo 250 ainda do banheiro que tu fodeu no meu apartamento.
    — Você ainda mora lá?
    — Não. Faz muito tempo que não. Se eu fosse te cobrar juros, eu tava rico.
    — Acredite ou não, fico feliz que tenha citado esse incidente. Me desculpa por aquilo, mas estou aqui pra tratar de negócios mesmo.
   — O quê?
    O demônio agora tinha um charuto na boca, saído sabe-se lá de onde. De seu polegar direito saía uma chama alta, tal qual um isqueiro potente. Era cubano, e Cristóvão sabia exatamente qual era, pelo cheiro.
    — Negócios, meu velho — disse Tim. — O que são 250 reais?
    — Pra você, acho que nada.
    — Nada! Claro. Sei que não está fácil pra ninguém.
    — Sabe, é? — Cristóvão sorriu, pois era difícil acreditar.
    — Sei. Você tá preocupado com o seu KPI, eu sei. E no escritório anda rolando uma conversa de corte nos gastos, não é?
    O sorriso sumiu do rosto de Cristóvão. Finalmente a mão vermelha e colossal de Tim ofereceu-lhe um lenço. Ele tomou e assoou o nariz, aliviando-se novamente.
    — Você está lá há muitos anos, você tem know-how, é confiável, mas não se engane. O mercado está atrás de carne fresca. Você não é carne fresca, e não será em outras empresas também. Capaz de ter que limitar suas opções no futuro próximo. Economizar um pouco. Levar uma vida mais modesta, mais “light”.
    — O que você quer? — Cristóvão indagou, pois nada na vida era de graça.
    — O que eu quero? O que eu quero não importa. O que você quer, Cris?
    — Não me chame assim, é Cristóvão
    — Desculpe. Mas e aí, Cristóvão? Essa alergia? — Tim estalou os dedos. — Já era. Gastar dinheiro com isso é passado. Mais importante ainda: sua saúde! De que adianta dinheiro sem saúde, chefe? Toma aí um pulmão novo. O que o médico te falou fica no passado também. O que importa é o agora.
    Tim deu uns tapinhas no peito de Cristóvão. Toda a coriza havia sumido. Respirava como fazia quando era um recém-adulto, ainda sem o costume de fumar. Quando o charuto lhe foi oferecido, ele tomou e experimentou. Não caiu morto, pelo contrário. Sentiu-se como já não havia há décadas.
    — Isso é bom, é interessante — disse Cristóvão. — Mas não existe almoço grátis, como dizem, né?
    — Quem foi que disse essa merda? — Tim riu. — “Não existe almoço grátis”. Com o dinheiro que você tem agora, o almoço ser grátis ou não vai ser irrelevante.
    — Sério? Mas não pode estar fazendo isso por bondade.
    — Vou deixar essa tua dúvida no ar. Não te dei escolha, dei? Aproveite bem a vida enquanto dura, Cris.
    A figura evaporou numa nuvem densa de enxofre. O cheiro era curioso, fez Cristóvão tossir. Ele parou o carro no acostamento e saltou pra fora. Percebeu, tirando o charuto da boca, que havia saído de uma Lamborghini que certamente não era o mesmo carro no qual havia entrado. Ele abanou a fumaça remanescente de seu benfeitor e murmurou:
    — É Cristóvão, porra.

23.5.16

Cai fora dessa sala

          Eu tinha passado a noite em claro bebendo, comendo porcaria e assistindo televisão. Não que eu achasse isso divertido, mas dormi o domingo inteiro por causa da festa que fui no dia anterior. Sendo assim, acabei dormindo na aula pra apaziguar a minha cólica. Mas a professora era um saco. A professora de Química.
          Falava, falava, não me deixava dormir em paz. Estava com a cabeça deitada sobre a mochila e os braços ao redor, mas não adiantou. Sua voz nasal chata, seu sotaque do leste europeu – ela era romena – estavam me deixando puto. Mas a gota d’água foi quando ela me abordou e me mandou sair de sala.
          “Que vergonha, hein, Daniel? Você não tem vergonha nessa cara? Eu trabalho em três colégios, hoje vou dar aula nos três turnos e você dormindo aí por causa de noitada. Você já me viu dormindo aqui? Trinta anos ensinando nessa escola, e nunca faltei um dia que não precisasse faltar. Cai fora dessa sala, porque eu não venho pra cá fazer papel de idiota dando aula pra um à toa como você. Mais respeito, da próxima vez, moleque”.
          Só não mandei aquela mulher enfiar os três colégios no traseiro porque estava cansado demais pra discutir. Nem relutei, saí de sala. Ao invés de ficar perambulando pelos corredores, como eu faria, fui direto pro banheiro masculino e sentei pra dar uma cagada. Melei toda a privada, não resisti. Tive de sentar porque não sei mijar que nem mulher em um banheiro público.
          O que aconteceu foi que eu dormi na privada por uns trinta minutos e nem havia fechado a portinha da minha divisória. Acordei com as risadas de um moleque do primeiro ano que se metia a esperto pra cima de todo mundo.
          “Que cagão”, ele disse.
          “Você não caga, não?”
          Ele tirou um celular do bolso, parecia que ia tirar uma foto porque apontava na minha direção. Levantei do nada, peguei-o pela blusa. Ele parecia assustado, então mergulhei a cabeça dele na minha bosta. Eu não queria ser ele. De quebra, arranquei suas calças jeans e limpei minha bunda usando elas. Folhas de caderno irritam ainda mais o traseiro.
          Enquanto o cara tossia e vomitava, com o rosto sujo, peguei seu celular e parti em duas partes. Como era um daqueles de flip, achei que não era o suficiente e pisei em cima de ambos os pedaços. Depois levantei minhas calças e fui esperar os poucos minutos que restavam para a aula de Geografia.

18.4.16

A lenda de Anakbaru – I

Das colinas veio Anakbaru, filho de Humbaba da floresta de cedros.

Que usava a cabeça de um leão como coroa, e as costas dele como capa, e os dentes dele de adorno, e as tripas dele no arco.

Trouxe consigo sua esposa Avati que tinha pele como mogno e guiava sua carruagem, e tocava o chifre de um touro.

Por três vezes circularam Umad e suas muralhas, e levantaram poeira em abundância, e o rei e seus homens anunciaram que um exército chegou.

Anakbaru disse então que não havia exército consigo. Havia somente o filho de Humbaba, e sua esposa consigo. O rei pegou sua lança e escudo para encontrá-lo fora das muralhas.

Foi na frente dos homens e mulheres de Umad que sua coroa de ouro foi perdida e virou uma tiara para Avati que era assim a nova rainha, junto à predecessora, que casou-se com o Homem-Leão Anakbaru.

Nenhum contestou, e assim começou seu reino.

4.4.16

Contato imediato

      Paulo não acordava de madrugada com frequência. Aquela, contudo, não era uma noite comum. Foi o barulho que saía das caixas de som de seu computador que perturbou seu sono. A máquina estava desligada, porém conectada à tomada na parede. Eletricidade corria pelo cobre até a fonte, ligada ao gabinete, ligado às caixas em questão, que transformavam os pulsos em ruído branco. Em meio aos sons caóticos ele conseguiu ouvir uma voz.
      Ela dizia muitas coisas indecifráveis. Paulo jurava estar sonhando até sentar-se na cama. Constatou então: não só não estava sonhando, como estava muito bem acordado. Nem mesmo o despertador conseguia resultado tão prontamente. Ele enxugou o suor frio da testa com o lençol. Palavras ainda ecoavam pelo quarto, porém não era um idioma conhecido, e a voz soava inumana. Provável resultado da distorção que ela sofria ao interferir.
      Era verão. A janela estava aberta. Do lado de fora, jazia o descampado enorme, a grama baixa. Paulo ergueu-se para ver se ele ainda estava lá, e estava. Porém, sobre ele, pairava um objeto voador não identificado. A forma era de prato e luzes coloridas saíam dele. Elas não piscavam, não como aviões faziam. Só giravam num carrossel lento, agourento.
      “É isso,” ele pensou. “Está acontecendo. É verdade.” Da janela ele observava o objeto descer, descer para o descampado. As vozes agora mais altas. Ele sabia que os tripulantes discutiam entre si. Qualquer idioma que fosse, ele sabia que trocavam termos técnicos. Estavam assegurando um pouso safo. O prato estava prestes a pousar no gramado, mas não o fez. “Não é possível.” Ele andou até a janela e coçou os olhos.
      O prato não era tão grande quanto parecia na janela. Não, ele tinha tamanho de prato. Pequeno, ele pousou no parapeito da janela aberta. Metade das luzes se apagaram, a estática se aquietava nas caixas de som. O silêncio voltou ao quarto. Não por muito tempo. Quando a espaçonave diminuta se abria, Paulo a golpeou com as costas da mão. Ela caiu da janela para o lado de fora e seus tripulantes berraram até a morte.
      Depois de varrer nave e cosmonautas, Paulo jogou o lixo fora e voltou pra cama. Ainda tinha mais quatro horas de sono até ter que tomar café e partir pro trabalho.

1.4.16

Certeza traidora

À noite, agita-se o sono;
No sonho, uma tempestade.
A calma com que desperto
É a certeza traidora.

Tenho o dia sem sorriso,
Tenho sais beirando os olhos.
Mas é pior, naquela casa,
A quem não quer despedir-se.

Estendem-se as nuvens fúnebres,
Os pássaros cantam réquiem.
Passa a Selina da terra,
Fica a Selina do céu.

7.3.16

Ponto de ônibus

9:28
A menina olha pro lado 
A menina olha pro outro 
O pombo morto no asfalto: 
Rosa, vermelho, cinza — abstrato 
Veículos ignoram a desvida no chão 
Cheiro de tabaco queimando 
9:29 
As luzes enganam de novo 
Ainda não foi dessa vez! 
Gente alegre a confabular 
Palavras que não dizem nada 
(Nada que ela saiba, 
Ela não fala berbere) 
9:30 
Flocos gélidos caem, 
Um exército pálido e fraco 
Em investida contra o concreto. 
Morrem inutilmente 
Atracam-se, desfazem-se, derretem
Em poças fúnebres, sujas
9:31 
Ela recorda-se do um minuto adiantado 
E as luzes surgem pontuais 
E elas nunca mentem: 282 
Passam por cima dos cadáveres 
(O pássaro, a água, a ansiedade) 
Ainda não foi dessa vez!

22.2.16

Diabos!

Solitário, à noite, Cristóvão assistia a um filme. Um filme cujo personagem principal era um daqueles sujeitos de sentimentos indecifráveis, cara de babaca e atitudes incompreensíveis. No meio do tal filme, a campainha tocou. Ele não fazia idéia de quem poderia ser. Apenas resmungou.

— Diabos!

Erguendo-se em seus pijamas azuis claros, xingando mentalmente quem estivesse do outro lado da porta, dirigiu-se a ela. Ao dar uma olhada pelo olho mágico, uma surpresa! Abriu a porta, curioso. Realmente eram diabos. Três deles, o mais alto o cumprimentou com um aperto de mão caloroso.

— Com licença —ele disse, entrando no apartamento.

Cristóvão fechou a porta após todos passarem e acomodou-se em sua poltrona. As proles do inferno sentaram-se lado a lado num sofá maior e começaram a alisar seus joelhos, não sabendo exatamente o que dizer. O maior deles sorriu, falando novamente.

— Belo apartamento, hein?
— É — respondeu Cristóvão.
— Gostei do papel de parede.

Servindo um copo de uísque para cada um deles, o rapaz sentou-se novamente e bebeu do gargalo. Um silêncio seguiu, interferido somente pelo som das gargantas cavernosas dos demônios engolindo a bebida.

— O que estava fazendo?
— Vendo filme.
— Legal.
— E você?
— Torturando almas. O mesmo tédio de sempre.
— Deve ser agoniante, mas tedioso, eu duvido.
— Quando você está há séculos no mesmo departamento, se acostuma.
— Imagino. Qual seu nome?
— Tim. Posso usar o banheiro?
— Vá em frente, Tim.

Pela primeira vez na vida, Cristóvão sentiu cheiro de enxofre e estava forte naquele recinto. Tim ergueu-se do sofá e em duas passadas de seus cascos de bode, entrou no banheiro diminuto. Mirou o sanitário com sua trolha diabólica e fechou os olhos, relaxando, tomado por um alívio bem humano. No entanto, no fim do ato, fora acometido por um constrangimento profundo ao notar que sua urina incandescente havia derretido a privada e parte dos azulejos no chão.
        
Após alisar sua face cavalar, realizou que não tinha o que fazer para consertar seu erro e lavou as mãos, voltando ao sofá. Cristóvão suspirou, aparentemente não havia trocado palavra alguma com os outros demônios. Eles nem pareciam estar confortáveis, de fato.
         
— Querem comer alguma coisa? — o anfitrião os perguntou.
— Não — disse Tim. — Obrigado. Já comemos.
— Certo.
— Mas aceito mais uísque.

         
Cristóvão serviu.
   
— Não se preocupe, não vamos te levar — disse, finalmente, o menor dos diabos, com um rosto cadavérico e uma voz aguda.
— Não me ocorreu nada do tipo — disse Cristóvão.
     
Só então ele prestou atenção no modo como o terceiro se locomovia. Estava encapuzado, coberto por uma manta negra, parecia deslizar as pernas pelo chão. Ao chegar perto de uma prateleira cheia de CDs, deixou seu capuz cair para trás e revelou seu rosto viperino.
   
— Você gosssta de Black Sssabbath — ele disse. — Nenhuma dessas bandas de rock realmente chegou perto de facer um pacto com o Chefe. O único que o fez foi Michael Jackssson, masss por algum motivo ele prefere pagar seusss pecados em vida.
— Chefe? — Cristóvão indagou.
— Sssim, o Chefe lá debaixo.
— Ah. Como ele é?
— Tipo Al Pacino — respondeu Tim.
        
O jovem mortal deixou uma risada sucinta escapar, e meneou positivamente com a cabeça. Pacino havia realmente se saído bem como Diabo, em Advogado do Diabo.
       
— Vamos? —Tim perguntou educadamente aos seus companheiros.
         
Levantando-se da poltrona, Cristóvão os acompanhou até a porta e apertou novamente a mão do porta-voz daquela pequena comitiva da destruição.
       
— Desculpe passar tão tarde aqui.
— Tudo bem. Sem problemas.
— Obrigado pelo uísque.
         
A porta se fechou e trancou imediatamente e Cristóvão voltou ao filme. Só reparou o estrago no banheiro quando iria utilizá-lo. Aquilo, sim, seria um problema.

1.1.16

Ceia com Dr. Lecter

Triângulos brancos de pano alinhados
Sobre rubra-e-alva seda bordada,
Simétrico arranjo de pratalhada,
Chopin nos meus ouvidos destreinados.

Disseste-me—a colher empunhada—
Que tratas tu mesmo que os próprios gados
Sejam, pois, propriamente derribados,
E concordei pós primeira garfada.

Pergunto-me se é verdade, talvez,
Que, ao toque do fogo cartaginês,
Juraste eterna inimizade a Roma.

Digo-te então, bom amigo interino,
Que o homem é primo carnal do suíno;
Abandona tua vaidade e me coma!

30.12.15

Escoamento

Formas circulares,
Voltas claras.
Formas transparentes,
Voltas alvas.

Formas esferoides,
Voltas leves.
Formas orbitantes,
Voltas débeis.

Formas renitentes,
Voltas finas.
Formas circunfusas,
Voltas vítreas.

Formas circunstantes,
Voltas próximas.
Formas convergentes,
Voltas lógicas.

Formas cristalinas,
Voltas fúlgidas.
Formas redundantes,
Voltas últimas.